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27 de janeiro de 2000

Currículo de Pinóquio

Ninguém dispensa um bom marketing pessoal no currículo, mas a armadilha dos exageros pode complicar a vida do profissional de TI

Por Daniel Aisenberg e Juliana Leite


Ter um bom currículo é o primeiro passo para entrar num mercado de trabalho cada vez mais exigente. Por isso, é necessário preparar o documento com cautela, pois exageros e mentiras podem causar constrangimentos e deixar o nome do candidato sujo na praça. Conversamos com profissionais de recursos humanos para saber quais os excessos mais freqüentes nos currículos dos profissionais de TI.

Não há nada de errado em fazer um bom marketing pessoal no currículo, porque na hora de conseguir um emprego temos que mostrar capacidade e vontade. O que não é bem visto é o candidato citar ferramentas que desconhece ou garantir que domina um produto que só utilizou uma única vez. Então, qual o limite entre demonstrar conhecimento e mentir na corrida por uma oportunidade de trabalho?

Sylvia Vergara, professora da Fundação Getúlio Vargas com ampla experiência em Recursos Humanos (esse não é um caso de exagero), acredita que não é raro ver profissionais de TI carregando nas cores ao elaborar o currículo:

- As pessoas querem mostrar que estão up-to-date. Já recebi currículo em que o candidato dizia conhecer uma ferramenta que ainda nem tinha entrado efetivamente no mercado.

Certificado falso

O coordenador de infra-estrutura de uma grande empresa, que preferiu não se identificar, conta um caso que nem de longe reflete a ingenuidade de alguém que só quer impressionar o empregador:

- Conheci um instrutor de tecnologia com uma certificação falsa da Microsoft. O documento mostrava que ele tinha feito cursos em datas nas quais eles ainda nem existiam - conta.

Segundo o coordenador, é muito comum o profissional da área de TI exagerar em três pontos: idiomas, cursos e produtos.

- As empresas não têm paciência para ensinar ao novo empregado, querem que ele já tenha todos os conhecimentos consolidados. Por isso, para conseguir a vaga, é comum o candidato dizer que conhece determinadas ferramentas" - afirma.

English fluente

A mentira, muitas vezes, não se resume somente a conhecimentos técnicos. Um problema também apontado por recrutadores é a questão da fluência em inglês.

- No currículo, o candidato diz que tem um bom nível de inglês. Mas na hora da entrevista e dos testes de conhecimento, eliminamos muita gente - conta Paula Szapszewiz, analista da RH da People, consultoria de Recursos Humanos que atende à Fleischmann-Royal Nabisco.

Segundo Paula, muitas pessoas acham que vale a pena exagerar no currículo porque é uma forma de arriscar, uma boa oportunidade de aparecer. A analista complementa com uma dica para os profissionais em busca de oportunidades:

- Recomendo que tomem cuidado. A mentira é muito desagradável para o avaliador de currículos e uma perda de tempo para o candidato".

Visão de negócio

Outro exagero comum é sobre talentos multidisciplinares, como noções de marketing e visão de negócio - um tipo de conhecimento em voga e cada vez mais valorizado em profissionais de TI.

- O mercado não está interessado no sujeito que só tem o nível técnico da faculdade, quer alguém com ampla visão de negócios. Mas muitos candidatos acham que têm esse conhecimento só porque lêem a revista Exame - constata Sylvia Vergara.

Mas, afinal, como fazer um currículo na medida, sem exageros? Na opinião de Marcos Cabral, gerente técnico do provedor ISM Net, não é necessário que um profissional de TI relacione, por exemplo, todas as planilhas que conhece.

- As empresas estão interessadas em saber com que tipo de tecnologia o candidato está familiarizado e por quais projetos ele já passou. Não nos interessa se ele domina o Word ou o Power Point; isso, qualquer profissional de TI tem que saber.

Derrota por W.O.

Que o mercado exige muitos (e sempre mais) conhecimentos dos profissionais, nós já sabemos. E é bom estar sempre atualizado e empenhado em aprender novas tecnologias. O que todo profissional deve ter em mente na hora da verdade, do contato com o empregador, é dar "aquela floreada" sem distorcer os fatos: domínio é domínio, noções são apenas noções.

Para isso, um gerente da área dá a dica:

- Uma postura adequada seria dizer no currículo que conhece a ferramenta superficialmente e está disposto a aprender, em vez de afirmar que a domina sem poder comprovar seus conhecimentos.

Quem não leva isso a sério, corre o risco de passar por uma situação humilhante em empresas que testam os candidatos mais cuidadosamente. Um exemplo é a KD Sistemas - dona do site de busca Cadê -, que inclui no processo de seleção testes de comportamento, questões teóricas e simulação de problemas técnicos. De acordo com André Marins, gerente de Tecnologia da empresa, é raro receber currículos mentirosos, mas já houve gente pagando pelos exageros no histórico profissional.

- Fiquei impressionado com algumas pessoas que passaram pela entrevista e, na hora do teste prático, simplesmente não apareceram - lamenta.

Um passo para o exagero é o excesso de detalhes, ou a famosa "encheção de lingüiça". Para Marins, o currículo ideal deve retratar a experiência profissional de forma suscinta. Informações pessoais, só o mínimo necessário, além de um apanhado da vida acadêmica. Tudo em no máximo duas páginas.

Está claro que elaborar um currículo preciso e eficaz não é fácil. A questão da mentira e dos excessos na busca por um emprego não deixa ninguém à vontade - nem empresas e nem profissionais. Até escrever uma pequena reportagem sobre o assunto foi mais complicado do que pensávamos, porque poucos falam abertamente sobre vícios do mercado de TI como esse (nosso entrevistado anônimo é uma prova). Não temos uma moral da história, mas uma proposta para você: vamos pensar mais sobre isso?



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